quinta-feira, 11 de junho de 2009

O COLO GRANDE DA TIA PRETA

Lisete Baessa - A Tia Preta de Chelas
" Num blogue, após assistir a um documentário na RTP2 sobre ela, alguém lhe chamou "o anjo de Chelas".
Difícil explicar o que faz: acolhe crianças, pode-se dizer.
Antes, passavam o dia na rua, partiam o bairro, metiam-se em sarilhos. Com ela mudaram. Porquê, difícil dizer. Ela diz que é amor, eles dizem que seja o que for que ela fez e disse mudou tudo. Ao ponto de os fazer desejar "uma vida normalmente"
Das cinco à meia-noite, a casa enche.
Qual será o segredo?
Tem cinco anos e uma colher de pau na mão. Ao princípio não fala, envergonhado, meio escondido no colo da "tia preta". Brinca com uma colher de pau, a "sete e quinhentos".
A sete e quinhentos, assim crismada, é o instrumento disciplinador da casa, mais o "banco do mocho", uma pedra grande junto à entrada onde os culpados se sentam de castigo.
São a pontuação das regras - e há muitas - que estabelecem a ordem no pequeno T2 de Chelas onde, por vezes, chegam a coincidir duas dezenas de crianças e adolescentes.
Hoje são menos, uns 10 (estão sempre a entrar e a sair), entre os 17 e os cinco anos.
Como ele, o da colher de pau, sem mãe desde os 15 dias.
Vive com o pai, uma avó e os irmãos mais velhos mas é aqui, na casa de Lizete Baessa, a "tia preta", que passa grande parte do dia. É aqui que lancha (e lancha agora uma tigela de cereais com leite, servida pelo Niná, o mais velho do grupo, frequentador da casa há quatro anos) que janta, que vê televisão, que brinca com o puzzle que trouxe de casa.
É aqui que aprende a pedir por favor e a dizer obrigado, a cumprimentar as visitas, a fazer a sua parte nas tarefas domésticas, a cumprir os deveres da escola.
"Os miúdos entram em minha casa e há uma escala de serviço. Eles acatam com uma grande facilidade as minhas regras. Sabem que quando digo que não é não, sim é sim. Não há talvez. A única coisa que eles dizem é 'com a tia pode-se conversar'. E sabem que quando se portam mal os ponho de castigo. Tenho crianças que têm várias personalidades. Quando estão comigo são uma coisa, com os pais insultam os pais, batem nos pais. Tenho dos recém nascidos aos 18 anos...
"Tem crianças, diz. Chama-lhes "os meus meninos".
Um destes dias, um menino de três anos que vive no mesmo prédio entrou-lhe pela casa dentro e anunciou: "Agora sou teu filho".
Sorri, um sorriso encantado. "Filhos, filhos nunca tive. Já criei um miúdo que os meus sobrinhos descobriram a viver na rua, ali junto à fonte luminosa, aos 13 anos. Tinha-se zangado com a família. Trouxe-o para casa e ele ficou. Dizia que não tinha mãe."
No quarto, fotos do menino agora homem casado, com a mulher, rivalizam com a espécie de altar que guarda a do pai, na entrada da casa.
Pedro Baessa, o primeiro e único negro deputado na Assembleia Nacional de Salazar, um moçambicano com seis filhos dos quais Lizete foi a mais nova.
"Vim para Portugal em 1967, com 14 anos. Meteram-me num colégio interno, detestei.
Estava habituada à liberdade de África, a uma casa cheia de gente...
Foi com os meus pais que aprendi a acolher os outros. A casa deles era um lar, era um colégio, era a pensão cá-te-quero. Cresci naquele ritmo, fiquei com aquela veia.
Gosto de dar sem receber nada em troca.
"Nada não será. Quando em Maio foi operada a um tumor no peito e ficou uma semana internada, uma senhora também do bairro que costuma ajudá-la a tomar conta dos miúdos ficou com eles esse tempo.
Ou seja, iam ter a casa dela, a "tia branca", em vez de à casa da tia preta.
"Não correu bem", diz Lizete. "Eles deram com ela em doida , portaram-se muito mal, e ela agora decidiu afastar-se um bocado".
Consciente de que o mau comportamento dos seus meninos não seria alheio ao medo de a perder - alguns, antes da operação, desapareceram, como se recusassem enfrentar a hipótese -, conta a história com um indisfarçado enlevo, o de quem reconhece que, afinal, recebe:
"Eles dão-me muito amor".
O milagre, se suave, não ocorreu sem escolhos.
"Esta gente tem muita falta de carinho. Ao princípio sofri um bocado porque não estavam habituados a receber atenção. As pessoas desconfiavam das minhas intenções, do que eu realmente quereria. Vieram-me pôr coisas aqui à porta: uma cabeça de galinha, pele de coelho, farinha, sal..."
O que fez? Meteu conversa com os miúdos, foi-se aproximando. E eles dela.
"Via-os por aí, na rua, fazia-me confusão estarem ali todo o dia. A escola é de vez em quando. É o estragar, o partir, o tratar mal, o não sei quê. Aqui encontram calor, amor...
"Más experiências? Abana a cabeça. "Às vezes temos uns arrufos. Mas eles voltam. E mudam. É tão bom vê-los mudar.
" Está aqui, na Flamenga, Chelas, há 14 anos. Um bairro, como se costuma dizer, "problemático".
"O que é que se entende por problemático? É quando a polícia cerca o bairro porque há quem venda droga? Nos bairros ditos não problemáticos não há problemas?".
Ela, diz, gosta. "Gosto, somos nós que fazemos os bairros. Em todos os sítios onde tenho passado tenho inclinação para dar um sorriso, alguma cor... Não tenho problema nenhum em dizer que vivo em Chelas. Vivo no Rock in Rio."
Ri. "E as pessoas dizem: e sais à rua sem problema nenhum? As pessoas têm a ideia que se dá um passo e eles matam, se olha e eles fulminam. Mas o bairro tem coisas boas. Há sempre alguém que ajuda, que dá a mão".
Também há o resto, claro: os elevadores escavacados, as portas partidas, o lixo atirado das janelas.
"Eles estragam onde vivem. É uma raiva de chamar a atenção. Estragam as próprias casas e depois esperam que venha alguém arranjar."
O apartamento minúsculo mas bem cuidado é seu - comprou-o à Gebalis, a empresa municipal que gere o bairro e à qual solicitou um espaço "para as crianças, onde possa fazer o que faço aqui, com mais condições".
Como não quer criar uma instituição ou sequer uma associação para o efeito, pediu a uma instituição católica da zona, a fundação Maximiliano Kolbe, para gerir os espaço - "Ficavam como entidade patronal".
Mas a coisa não arranca. "Um senhor quis ajudar, patrocinar, mas como é da igreja evangélica criou-se um sururu...
Tentei explicar que isto não tem nada a ver com religião, é um problema humano. Sou católica, mas que tem isso a ver?"
Agora, diz, como o "bispo evangélico" traz comida e dinheiro (dar de comer a tanta criança não sai barato), os párocos começaram a trazer também dádivas.
"Ainda ontem vieram trazer iogurtes, uma garrafa de óleo e trinta euros".
O "espaço" que falta é uma espécie de projecto de grupo.
Niná e a Bela, os mais crescidos, até estão a fazer um curso de "educação e formação". "Entramos com o sexto e acabamos com o nono ano", explica o Niná.
"E se houver o espaço podemos lá trabalhar. Experiência não nos falta."
Faz um gesto largo, risonho, sobre as crianças espalhadas na sala de 12 metros quadrados, e que lhe obedecem sem discutir.
A transição entre o rés-do-chão da ex-secretária (foi a sua profissão durante anos até que a doença determinou uma baixa prolongada e a aproximou, pela permanência, das crianças do bairro) e um lugar institucional poderá não ser tão óbvio ou fácil como Lizete Baessa parece crer.
Perder-se-á, decerto, o aspecto espontâneo desta obra - porque de uma obra se trata.
Talvez se ganhe na dimensão: "Há muito miúdo que se perde... Mas penso que sem isto se perderiam muitos mais.
Convido-os a vir, fazer esta casa como sua.
Mas digo: 'não te obrigo, quando não quiseres não vens'. Eles vêm porque querem. Há calor humano, há amor. Eles não têm e os pais também não tiveram nem têm para dar.
E buscam a tia preta."
Autoria: Fernanda Cancio
In: Diário de Notícias - 13 de Dezembro de 2008

24 Comentários:

Blogger rosa dourada/ondina azul disse...

História comovente, mas real!

Recebe as crianças, e dá-lhes Amor:)

Bela postagem,
aqui nos trazes,

Beijo,

11 de junho de 2009 às 12:00  
Blogger Maria Clarinda disse...

Obrigada por esta partilha maravilhosa!!!!Sem palavras...Obrigada "Tia Preta"
Jinhos de um carinho imenso

11 de junho de 2009 às 12:32  
Blogger Agulheta disse...

Maria Faia! Tive o previlégio de ver esta reportagem,ao qual achei maravilhosa pelo espírito de entrega e solidariedade que é (Tia Preta)eu vi a colher de pau,se calhar alguns de nós já levaram com ela dos nossos pais,talvez por isso tenha-mos outra postura de vida, e damos valor a outras coisas,educar é preciso,com liberdade claro.
obrigada pela partilha da escrita. Beijinho

11 de junho de 2009 às 18:35  
Blogger Isa disse...

E esse "colo" é das poucas coisas boas que as crianças sentem.
Obrigada,digo tb.,"Tia Preta"!
Beijo.
isa.

11 de junho de 2009 às 20:37  
Blogger Avelaneira Florida disse...

Não parei de ler esta imensa lição de vida!!!

Maria Faia, Obrigada por este post!!!!

No final de mais um ano lectivo fica sempre alguma angústia no momento das classificações finais...Se fomos justos...se cometemos alguma injustiça, porque os jovens merecem a nossa maior atenção!!!
E aqui...a chave de tudo. De uma forma tão simples!!!!
Obrigada,"Tia Preta"!!!!

Bjkas!!!

11 de junho de 2009 às 22:23  
Blogger Bipede Implume disse...

Querida Maria Faia
São estes exemplos que me fazem, ainda, ter fé no ser humano.
A "Tia Preta" é um ser iluminado. Ela sabe que o Amor é a mola real da vida, mas disciplina e educação também a complementam.
Beijinho grande de amizade.
Isabel

11 de junho de 2009 às 23:19  
Blogger elvira carvalho disse...

Tive a sorte de ver na TV uma reportagem desta senhora e da sua casa cheia de crianças.
É eu levei muitas vezes com a colher de pau. Era a maneira que a minha mãe usava para calar a minha rebeldia.
Um abraço e bom fim de semana

12 de junho de 2009 às 08:25  
Blogger De Amor e de Terra disse...

Que lindo, minha Amiga; que lindo!!!Não vivi num bairro, mas a vida era outra, com muita pobreza
também.
E tal como a tia Preta,venho duma família onde eram acolhidos, de graça, alguns miudos mais pobres, cujos pais, saindo para trabalhar o dia inteiro, não tinham dinheiro para amas...nessa altura não havia infantários, só amas.
Não eram muitos, às vezes 5, outras 6 ou 7... mas as mães, sempre que a minha estava doente,o que acontecia com frequência e eu também tinha que ir trabalhar, nas horas livres, principalmente ao fim de semana, ajudavam-me a cuidar da casa.
São amores que não esquecem.
Beijo Maria e obrigada por me fazeres recordar tempos difícies, mas bons e me dares a conhecer esse
Espírito de Luz que é a Tia Preta.
Maria Mamede

12 de junho de 2009 às 14:15  
Blogger Duarte disse...

Bonito, com sentimentos, como os da "tia preta".

O gesto é o que importa, vindo das preceptoras, e as crianças são receptivas, para elas não existe a cor, mas sim o comportamento.

Também conheci a colher de pau, comi e levei com ela: mas mais com a régua e a cana.

Beijinhos

12 de junho de 2009 às 18:04  
Blogger SILÊNCIO CULPADO disse...

Maria Faia

É um hino de amor esta forma de entrega da "tia preta". Dar e respeitar a individualidade sem nada esperar a não ser amar e reconhecer que todos têm coração e são capazes de o sentir bater.
Sem preconceitos, sem estigmas, sem barreiras é possível que o amor aconteça e nós possamos ser muito melhores. E ao sê-lo somos mais felizes.
Ainda bem que me deste a conhecer a "tia preta". Não é todos os dias que temos conhecimento dum exemplo como este.


Abraço

12 de junho de 2009 às 21:21  
Blogger Mário Margaride disse...

Uma bela história de amor e solidariedade. Oxalá servisse de exemplo para muitos e muitos de nós!

Beijinhos e um bom fim de semana!

Mário

13 de junho de 2009 às 00:33  
Blogger Meg disse...

Maria Faia,

Tive a felicidade de ver a reportagem com a "tia preta" e tenho muita dificuldade em comentar - as saudades de uma vida em que a amizade, a partilha e o acolhimento não era coisa rara, deixam-me sem palavras.
Porque esta mulher trouxe para cá, muito da forma de viver em África... uma África onde as portas estavam abertas a quem viesse. Outros tempos, dirás tu, mas que marcaram muito.
Talvez por isso, não me surpreenda tanto esta "tia preta", mas sim o facto de ela ter conseguido impôr-se, assumir-se e à sua "sete e quinhentos".
Gostaria muito de abraçá-la, à tia preta...

Um beijo

14 de junho de 2009 às 20:53  
Blogger lilás disse...

Que linda história de dedicação e amor!!!
Bjs

14 de junho de 2009 às 22:55  
Blogger Dri Viaro disse...

Boa semana!!

to na correria hj, depois volto com mais tempo

bjssss

15 de junho de 2009 às 17:43  
Blogger Mário Margaride disse...

Amiga Maria

Nunca será de mais enaltecer estas almas enormes, que se entregam de coração aberto ás crianças, e lhes dão tanto amor e carinho.

Beijinho e boa semana!

Mário

16 de junho de 2009 às 01:37  
Blogger Ana Martins disse...

Também vi esta reportagem, sem dúvida uma grande Mulher!

Beijinhos,
Ana Martins

16 de junho de 2009 às 01:56  
Blogger gaivota disse...

ainda procuram a tia preta... tem sempre algo a oferecer e sorrisos a retribuir!
(vi a reportagem, interessantíssima!)
beijinhos

16 de junho de 2009 às 10:31  
Blogger Zé Povinho disse...

Talvez por preconceito não li antes este texto da Fernanda Câncio, e não fora o apelido da mãe preta, talvez não o tivesse lido agora. Em boa hora o li, pois são actos destes que nos fazem confiar na humanidade, apesar das muitas coisas más que também nos chegam ao conhecimento.
Abraço do Zé

16 de junho de 2009 às 23:24  
Blogger elvira carvalho disse...

Passei. Na ausência de novidades, deixo um abraço.

18 de junho de 2009 às 00:25  
Blogger Bipede Implume disse...

Amiga Maria Faia
Tenho um prémio para ti no Com Calma
Beijinhos.

19 de junho de 2009 às 02:04  
Blogger poetaeusou . . . disse...

*
Velha encarquilhada
Carapinha branca
Gandola de renda
Caindo na anca
Embalando o berço
Do filho do sinhô
Que há pouco tempo
A sinhá ganhou
Era assim que mãe preta fazia
Criava todo branco
Com muita alegria
Enquanto na senzala
Seu bem apanhava
Mãe preta mais uma lágrima enxugava
Mãe preta, mãe preta,
Mãe preta, mãe preta
Enquanto a chibata
Batia em seu amor
Mãe preta embalava
O filho branco do sinhô
,
in-Piratini / Caco Velho
.
conchinhas, deixo,
,
*

20 de junho de 2009 às 12:22  
Blogger João Fernandes disse...

Conheço a Tia Preta desde muito jovem,foi minha colega na E.I.C. Escola industrial e Comercial Neutel de Abreu em Nampula,Moçambique.O Pai,o unico negro deputado da Assembleia, antes do 25 de abril, assim como foi também unico Presidente negro de uma Camara Municipal, a de Nampula, antes da Independência.Um homem fora de série, infelizmente já falecido. Parece que ainda o estou a ver com o seu cachimbo a esfumaçar.
A Dalila Ferreira, o Mário da Fonseca e eu, João Fernandes, assim como alguns amigos, tentamos ajudar dentro do possível a Lizete, ou antes os seus miudos.As ajudas nunca são suficientes evidentemente para dar o apoio necessário. Foi aberta uma conta para tentar culmatar as dificuldades e alguns amigos vão todos os meses depositando, dentro do possível alguma quantia que vá chegando para as despesas que a Lizete tem que enfrentar todos os meses. Quem puder (sei que com a crise não é fácil)pode tranferir para a conta da CGDepósitos para o seguinte nº0255-100 622 300 ou para o NIB 0035 0255 001 006 223 0094. Não esqueçam, 2€ daqui, outros 3€ dali, se conseguir-mos 30/40 pessoas que possam todos os meses depositar essa quantia, ou um pouco mais se possível, vai dar uma grande ajuda.
Sei que não é fácil hoje em dia as pessoas confiar num qualquer que por aqui aparece virtualmente pedir ajuda, tem todo o direito para duvidar. Aconselho a todos os que possam ajudar a entrar em contacto diretamente com ela por telef, ou indo diretamente a casa dela, para tirar duvidas.Para isso deixo os contactos dela, assim comoa da Dalila, que é neste momento a pessoa que está neste momento a dar mais apoio uma vêz que vive em Lisboa e eu estou em Coimbra.

Contactos da Lizete;R. RICARDO ORNELAS LOTE 375 R/C DT.
1950-331 LISBOA- 218373818 - 969882486

Télélé da Dalila;21 726 47 01-936572528
Meu, João Fernandes 239082366-916448917 email-joaofern@gmail

8 de outubro de 2009 às 09:40  
Blogger João Fernandes disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

9 de outubro de 2009 às 07:21  
Blogger João Fernandes disse...

Pedi ao autor do Blog no dia 9, para eliminar a minha msg do dia 8, porque tive um lapso no nº da conta da Lisete. Passados estes dias todos, convencido que já estaria eliminado.Hoje vim espreitar e surpreendi-me pois assim não acontecera. Ao tentar eliminar, fi-lo mal e eliminei a msg errada do dia 9. De qualquer forma peço imensas desculpas e deixo então o nº da conta exato e caso queiram confirmar, é só ligar á pessoa a quem se destina, cujo nº contacto consta na msg anterior.

João Fernandes

NIB do BCP - 0033-0000-4531327917705

29 de outubro de 2009 às 19:43  

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